
Não sei quando foi que eu desaprendi a gritar. Em que momento da minha vida eu decidi que era melhor sofrer calada com o que me incomoda, do que cuspir o sapo em alto e bom som. Não sei quando foi que eu desisti de bater a porta e transformar minhas tristezas numa agressividade saudável. Não sei quando se deu essa mudança. A partir de que ponto da minha história, eu deixei de "brigar pacificamente" e gritar, quando me senti agredida. Porque que eu resolvi sempre respirar fundo, pedir baixinho e rezar para ser ouvida no melhor estilo madre Tereza, quando meu mundo psíquico se manteria muito mais saudável se eu chutasse o pau da barraca e estampasse em letras garrafais as realidades que são incompatíveis com o meu bem-estar. E ponto. E aceitasse quem quisesse. Quem achasse que vale à pena. Quem estivesse disposto a pegar o pacote completo, com o ônus e o bônus abraçadinhos feito irmãos siameses.
Porque passo longe de uma pessoa mimada ou cheia de vontades. O chip do orgulho deve ter sido expelido naturalmente, quando saturno retornou "sei-lá-pra-onde". Frescura, não tenho nenhuma. E se tenho, é tão insignificante quem nem vale ponto no currículo. Sendo assim, o que não me agrada, não me agrada porque me faz mal de verdade. E a gente não deve aceitar o que faz mal. A gente não deve colecionar mágoas por medo de incomodar. Principalmente quando a gente é incomodado numa frequência ritmada, e ninguém liga.
E é a gente que tem que entender. É a gente que tem que justificar a ação de terceiros. Somos nós que temos a obrigação desobrigada de passar por cima, entender as palavras que soam como tapas na cara e sorrir porque o outro "tem problemas-estava bêbado-tem um coração bom apesar das repetidas agressões-coitado-tem trauma de infância".
E a gente se ilude achando que ganha bônus por tamanha capacidade de compreensão. A gente até acha que - um dia - será recompensado quando a situação for crítica para o nosso lado. Quando a gente precisar tanto a ponto de criar coragem até para pedir. Lêdo engano, pessoas. Em alguns casos, não é dando que se recebe... E isso me faz pensar se - melhor mesmo - não é ser impulsiva e descompensada, quando o mundo pedir isso da gente. Ser um pouco mais humano, demasiado humano, para poder delimitar território e receber a parte que nos cabe nesse latifúndio. Sem pedidos, sem favores, sem a angústia da espera.
E tenho dito. Bem dito.